O ano de 2026 foi declarado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher Agricultora. No Baixo Amazonas, região que inclui os territórios de Mojuí dos Campos, Santarém e Belterra, as mulheres lideram a implementação de quintais agroecológicos que unem o saber tradicional às técnicas avanças de agroecologia. Na região do Curuá, Amapá, são as mulheres que organizam a extração de óleos essenciais.
Soranda Melo é um dos rostos dessa transformação. Em sua propriedade de menos de dois hectares, ela cultiva biodiversidade e colhe autonomia. “A decisão de voltar [da cidade] para cá foi porque eu me tornei mãe. Eu queria uma segurança para minha filha”, explica Soranda. “Para mim, o quintal é um espaço de paz e renda estável.”
Atualmente, 80% dos produtores participantes do projeto de Quintais Produtivos são mulheres. Elas personificam a força de uma economia que nasce no entorno das casas e se expande para o mercado formal. Com acesso a insumos e assistência técnica, elas aumentam a sua produção e se capacitam para participar de programas como Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
O foco do projeto é a implantação ou transição para Sistemas Agroflorestais (SAFs), que permitem a revitalização do solo e a regeneração da floresta através da interação inteligente entre espécies. Em uma região que, apesar de amazônica, enfrenta desafios críticos de irrigação, os técnicos agrícolas disponibilizados pelo projeto analisam o perfil de cada propriedade para propor sistemas adequados que sustentem a produção ao longo de todo o ano. O consultor técnico em agroindústria Elinaldo Maia destaca: “O objetivo é garantir que a família tenha recursos diversificados durante todo o ano, melhorando a condição de vida através de um escoamento qualificado da produção.”
Esse modelo de desenvolvimento surge como uma alternativa vital em áreas onde o cultivo de soja em larga escala exerce pressão sobre os pequenos agricultores e coloca em risco a segurança alimentar da região. A partir de Quintais Produtivos no modelo de SAF, é possível gerar frenda, prosperidade e manter a floresta em pé. É com esse propósito que o SEBRAE desenvolve uma série de atividades no âmbito do projeto de Bioeconomia, estruturando e fortalecendo modelos econômicos baseados no uso sustentável de recursos biológicos renováveis e integrando ciência, inovação, empreendedorismo e conservação ambiental. O projeto prioriza a agregação de valor, a economia circular e o desenvolvimento territorial, especialmente em regiões de alta biodiversidade como a Amazônia.
O Interelos, a partir de sua experiência no desenvolvimento de cadeias produtivas inclusivas, é o parceiro executor deste projeto, que também inclui ações no Amapá. Nesse estado, o Interelos desenvolve ações de fortalecimento da cadeia de açaí, em especial do açaí da região do Bailique e Beira-Amazonas, que conquistou recentemente o selo de Indicação de Origem Protegida, assim com o desenvolvimento da cadeia de óleos essenciais na região do Curuá.
A atuação do Interelos abrange a coordenação metodológica, a articulação com os produtores e o monitoramento sistemático de indicadores sociais do projeto. O projeto também inclui uma publicação que vai sistematizar o processo de implantação de quintais produtivos.