Dona Maria Odila, gestora da Casa Familiar Rural de Santarém, no oeste do Pará, resume em uma frase o que espera de cada turma que passa pela escola: "Meu sonho é que os jovens saiam daqui formados tendo os seus próprios negócios, suas próprias produções, fazendo a diferença em suas comunidades". Esse sonho ganha forma na rotina da escola, em que os estudantes alternam períodos em sala com períodos na propriedade da família, onde aplicam o que aprenderam, testam ideias e assumem responsabilidades junto à comunidade. Essa forma de ensinar, a Pedagogia da Alternância, organiza o cotidiano dos Centros Educativos Familiares de Formação por Alternância (CEFFAs), escolas comunitárias mantidas por associações de famílias que há décadas formam jovens produtores e lideranças no campo, nas florestas e nas águas da Amazônia.
Apesar dessa trajetória, as escolas ainda aparecem de forma fragmentada nas estatísticas oficiais e pouco presentes nas agendas públicas. Para preencher essa lacuna, o Interelos, com apoio da Fundação Banco do Brasil, realizou o Panorama dos CEFFAs na Amazônia Legal. O levantamento mobilizou 79 escolas em 48 municípios de oito estados, cruzou dados do Censo Escolar 2024 com um questionário respondido pelos gestores e ouviu federações, redes e especialistas.
O Panorama integra o projeto Educação do Campo como Vetor do Desenvolvimento Sustentável em Territórios Amazônicos, que o Interelos desenvolve em parceria com a Fundação Banco do Brasil. O projeto parte da convicção de que a escola do campo é uma das bases do desenvolvimento dos territórios e se organiza em três frentes que se complementam. A primeira é o próprio Panorama, que produz conhecimento sobre essas escolas. A segunda acompanha dez CEFFAs no fortalecimento da gestão, com a contratação e a formação de gestores escolares, a adoção de um sistema informatizado de gestão acadêmica e financeira e o apoio à conectividade. A terceira incentiva a agroecologia por meio de bolsas para projetos desenvolvidos pelos próprios estudantes.
O estudo revela escolas com forte enraizamento territorial, currículo conectado às cadeias produtivas locais, como mandioca, açaí, piscicultura e sistemas agroflorestais, e participação ativa das famílias na gestão. Também mostra onde estão os principais obstáculos: dificuldade para comprovar regularidade jurídica, financiamento instável, equipes reduzidas e infraestrutura incompleta, com escolas que ainda funcionam sem água potável ou sem internet. A principal conclusão é que a proposta pedagógica se mostra sólida e que o maior desafio dessas escolas está na sustentação institucional.
Jovens que empreendem e lideram
Os dados do Panorama confirmam o que Dona Maria Odila vê no dia a dia. Das escolas que responderam ao questionário, 21 relatam jovens que passaram a empreender no meio rural e 20 observam maior participação social e política dos egressos, ao lado do retorno à produção familiar e do ganho de autonomia. Esses resultados nascem da própria organização da alternância. Ao longo do curso, cada estudante constrói um Projeto Profissional do Jovem, que liga o seu projeto de vida ao desenvolvimento do território, e convive com a gestão comunitária da escola, conduzida pelas famílias em associações e assembleias. É nesse percurso que surgem novos produtores, pequenos negócios e lideranças comunitárias, e as bolsas para projetos agroecológicos dos estudantes apoiam justamente esse passo.
Um marco para o trabalho com as escolas
O Panorama é a base de todo o projeto. Seus dados orientaram a escolha das dez escolas do Pará, do Amapá, do Maranhão e de Rondônia que participam das demais frentes e deram origem a um diagnóstico individual de cada uma, que define as prioridades de apoio em gestão, regularização e práticas agroecológicas. O estudo também reúne recomendações para políticas públicas e parcerias que reconheçam as especificidades da alternância, o que faz dele uma referência útil para além do próprio projeto.
"Os CEFFAs provam, todos os dias, que é possível formar jovens que constroem o seu futuro no próprio território. O Panorama dá visibilidade a esse trabalho e reúne as evidências de que parceiros, poder público e comunidades precisam para apoiar essas escolas de forma consistente.", afirma Viviane Aguiar, presidente do Instituto Interelos
Os resultados foram apresentados em abril, em webinar transmitido da sede da Fundação Banco do Brasil, em Brasília, com a gravação disponível no canal do Interelos no YouTube. A versão completa do Panorama está disponível na página de publicações do Interelos.